Abrace quer colocar o consumo no centro da política energética

Revista Brasil Energia | As Lideranças Empresariais

Abrace quer colocar o consumo no centro da política energética

Paulo Pedrosa, presidente-executivo da Associação dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livres, defende energia como instrumento de industrialização e crescimento e propõe pacto nos moldes do Plano Real

Por Marcelo Furtado

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Paulo Pedrosa, presidente-executivo da Abrace, a associação dos grandes consumidores de energia, defende uma mudança profunda no setor: a energia não pode mais ser tratada como um fim em si mesma, focada nos interesses da própria cadeia, mas sim como instrumento para alavancar a competitividade e a reindustrialização do Brasil.

Para o executivo, a lógica atual criou o que ele classifica como uma "política anti-industrial energética". O resultado é uma explosão de encargos, impulsionada pelo crescimento da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e do Encargo de Potência (ERCAP), que financiam desde subsídios a painéis solares importados até contratação de usinas termelétricas inflexíveis e projetos nucleares.

Em entrevista ao programa As Lideranças Empresariais, série especial de entrevistas da Brasil Energia, ele argumenta que o país desperdiça sua vantagem em recursos renováveis devido aos altos custos gerados por encargos e subsídios, que acabam encarecendo a produção nacional.

Para reverter esse quadro, Pedrosa propõe o “Plano Real da Energia”, inspirado na estabilização monetária dos anos 1990. A ideia é criar uma camada de consumo voltada à eletrificação e descarbonização, permitindo que novos projetos industriais tenham participação reduzida nos encargos durante uma fase de transição. O crescimento dessa demanda ajudaria a utilizar melhor a infraestrutura e a diluir os custos fixos do sistema elétrico.

Um dos destaques da entrevista foi a defesa de uma agenda mais ambiciosa para o gás natural, que, na visão da Abrace, deveria desempenhar papel central na reindustrialização e na descarbonização da economia brasileira.  Apesar de reconhecer avanços regulatórios na atuação da ANP, ele alertou para o risco de ociosidade das infraestruturas e "morte" das empresas de gás a longo prazo, caso o custo da molécula continue expulsando a indústria para fontes como a biomassa.

"Se o Brasil não aproveitar essa janela, no final das contas os ativos não depreciados vão virar um problema para os governos indenizarem. A solução é dobrar o consumo pela metade do preço", afirmou, defendendo a adoção de contratos de longo prazo com a indústria, desvinculados da indexação internacional, para viabilizar novas fábricas de beneficiamento mineral e siderurgia.

Veja os principais pontos da entrevista:

Energia para o desenvolvimento: O debate não deve focar apenas na expansão da oferta e rentabilidade dos agentes. O sucesso do setor elétrico deve ser medido pelos resultados entregues à sociedade, como geração de empregos e aumento da produtividade.

Encargos e política anti-industrial: A expansão de encargos como a CDE e o ERCAP vem transferindo custos crescentes para os consumidores produtivos. Na visão da Abrace, o modelo atual cria uma espécie de política anti-industrial, uma vez que os encargos se acumulam ao longo das cadeias produtivas e acabam incorporados ao custo dos produtos brasileiros, reduzindo sua competitividade tanto no mercado interno quanto nas exportações.

Plano Real da Energia: Inspirado na transição promovida pelo Plano Real, Pedrosa propõe a criação de uma nova camada de consumo voltada à eletrificação, à descarbonização e ao desenvolvimento industrial. A ideia é permitir que novos empreendimentos estratégicos tenham uma participação reduzida nos encargos durante um período de transição, contribuindo gradualmente para o sistema à medida que os custos estruturais sejam corrigidos.

Indústria verde e gás natural: A transição energética deve focar na agregação de valor (aço de baixo carbono, hidrogênio verde, data centers). Além disso, o gás natural do pré-sal precisa ganhar escala por meio do consumo industrial e contratos de longo prazo, transformando a abundância do insumo em vantagem competitiva.

Subsídios transparentes: Pedrosa critica o modelo que financia políticas públicas por meio da conta de energia. Segundo ele, programas considerados legítimos podem acabar produzindo efeitos econômicos indesejados quando seus custos são incorporados diretamente às tarifas. A proposta da Abrace é transferir esses subsídios para o orçamento público, permitindo maior transparência, controle social e debate político sobre suas prioridades.

LRCap com soluções mais eficientes: Embora reconheça a importância da segurança energética, Pedrosa considera exagerado o volume de contratação realizado e questiona a predominância de soluções térmicas. Para ele, tecnologias como baterias e mecanismos de resposta da demanda podem oferecer alternativas mais eficientes, econômicas e compatíveis com os objetivos de descarbonização.

Mercado Livre de energia: A abertura do mercado livre só produzirá resultados efetivos se vier acompanhada da correção dos sinais de preço e da redução das distorções existentes (quem consome na ponta deve pagar pelo acionamento térmico). Encargos como CDE e ERCAP limitam os benefícios econômicos da migração para consumidores menores e dificultam a consolidação de um ambiente realmente competitivo.

Assista à entrevista na íntegra aqui.

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