O desafio tecnológico para a expansão do mercado de biometano

Opinião

O desafio tecnológico para a expansão do mercado de biometano

O Brasil está preparado para transformar essa expansão em liderança tecnológica e desenvolver aquilo que ainda não existe? Precisamos fortalecer essa cultura no Brasil e evitar copiar tecnologias quando temos condições completamente diferentes

Por Bruna Moraes

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Nos dias 11 e 12 de agosto participei do 13º Fórum do Biogás, em São Paulo, e pude constatar que o mercado brasileiro de biometano finalmente está ganhando escala, confiança e perspectiva. Empresas, investidores, fornecedores de tecnologia, consumidores e representantes do governo discutiram regulação, novos negócios, abertura do mercado de gás e descarbonização. O mercado se mostrou realmente aquecido.

Mas saí do evento com uma inquietação: o mercado parece estar avançando mais rápido do que a nossa capacidade de desenvolver as tecnologias que irão sustentá-lo. O Brasil está preparado para transformar essa expansão em liderança tecnológica?

A agenda regulatória avançou muito, com a Lei do Combustível do Futuro, o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano e a recente regulamentação do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB). O CGOB representa um avanço importante ao atribuir valor ao atributo ambiental do biometano e dar maior previsibilidade ao mercado.

Segundo dados da ABiogás, a produção brasileira cresceu 75% em 2025, chegando a cerca de 1,06 mi m³/dia. O país já conta com 21 plantas autorizadas pela ANP e 48 em processo de autorização.

No entanto, não podemos confundir crescimento da capacidade instalada com inovação tecnológica. Grande parte da expansão ainda está concentrada em soluções conhecidas, especialmente no aproveitamento de biogás de aterros sanitários. São projetos importantes, mas representam rotas tecnológicas já maduras. Precisamos transformar essa expansão do mercado em vantagem competitiva baseada em conhecimento.

Temos uma das maiores “reservas” de resíduos do mundo, provenientes das cadeias agroindustriais, da pecuária e do setor urbano. É nessa diversidade, ainda subaproveitada, que vejo uma janela de oportunidade para o Brasil. Por que não aproveitar este momento para desenvolver soluções pensadas para as condições brasileiras, em vez de continuar importando tecnologias e equipamentos?

A inspiração nos países líderes deveria estar em entender como eles organizam a relação entre pesquisa, infraestrutura experimental e mercado. Na Alemanha, empresas recorrem a centros como o DBFZ para desenvolver e testar soluções para problemas concretos da indústria. Na Suécia, o Biogas Solutions Research Center (BSRC) aproxima pesquisa, empresas e setor público. Na Dinamarca, a Aarhus University mantém, na Foulum Biogas Plant, infraestrutura para pesquisa e demonstração de tecnologias de biogás em diferentes escalas.

A Billund BioRefinery, também na Dinamarca, é outro exemplo. O projeto partiu de uma estação de tratamento de esgoto e transformou o lodo em matéria-prima para produção de biogás e energia. Com pesquisa, desenvolvimento e inovação, a planta passou a receber resíduos orgânicos domésticos e industriais e esterco, ampliando a produção de biogás e a recuperação de recursos. O sistema possibilita recuperação de fósforo, fertilizante orgânico e pesquisas para outros bioprodutos, como bioplásticos biodegradáveis. Ou seja, é uma biorrefinaria de resíduos aplicada ao contexto local.

Esses exemplos mostram que a pesquisa não está separada do mercado. Empresas levam problemas reais para estruturas capazes de testar, demonstrar e aprimorar soluções. Não se trata de validar uma tecnologia pronta, mas de desenvolver conjuntamente aquilo que ainda não existe.

É essa cultura que precisamos fortalecer no Brasil. Não precisamos e nem devemos copiar as tecnologias europeias, uma vez que temos condições completamente diferentes. Nossos resíduos, nossa agroindústria, nosso clima e nossa escala podem gerar soluções que não existem em nenhum outro lugar, e essa é a nossa vantagem competitiva.

Mas inovação tecnológica envolve risco, e sem essa disposição para experimentar, o Brasil continuará sendo um excelente mercado para tecnologias desenvolvidas em outros lugares.

O país já possui instrumentos que podem ajudar a mudar essa realidade. O modelo da Embrapii aproxima empresas e instituições de pesquisa e compartilha custos e riscos do desenvolvimento tecnológico, justamente quando ainda não existe uma solução pronta.

É essa aproximação entre ciência e mercado que também buscamos fortalecer no Centro Paulista de Estudos em Biogás e Bioprodutos (CP2b), conectando problemas reais a pesquisa, desenvolvimento e demonstração.

Minha impressão depois do Fórum é que o Brasil já decidiu investir no mercado de biometano. Agora precisamos transformar parte desse investimento em capacidade tecnológica baseada em ciência e inovação.

 

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