Remédio para a febre não resolve. É preciso atacar as causas
Opinião
Remédio para a febre não resolve. É preciso atacar as causas
Soluções como o LRCap e o leilão de baterias são saídas tecnicamente adequadas para trazer maior segurança e reduzir o risco de apagões no SIN. Mas elas resolvem apenas as consequências do problema, sem que a sua causa raiz seja tratada
As organizações empresariais e a administração pública têm sido impactadas, desde o século passado, por uma metodologia altamente eficaz para solucionar problemas — dos mais simples aos mais complexos: a Metodologia de Análise de Causa Raiz (RCA - Root Cause Analysis).
Com ela, tornou-se corriqueiro o uso do Funil da Resolução de Problemas, que se desdobra em quatro passos fundamentais sustentados por ferramentas consagradas:
1. Definir o Problema
2. Investigar as Causas (Como e por que aconteceu?): Diagrama de Ishikawa (Espinha de Peixe) - Regra dos 5 Porquês
3. Analisar e Priorizar (O que atacar primeiro?): Princípio de Pareto (Regra 80/20)
4. Plano de Ação e Bloqueio (Como garantir que não se repita): Plano de Ação
Infelizmente, esquecemos esse processo revolucionário quando tratamos da segurança do Sistema Elétrico Brasileiro (SEB).
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem relatado uma enorme dificuldade operacional para efetuar a gestão das fontes de energia e manter o equilíbrio com a carga. Seus técnicos convivem, no mesmo dia, com a sobra de energia - principalmente no período diurno, por volta das 14 horas - e com a necessidade de introduzir, em poucas horas ao final da tarde, cerca de 40 GW de potência para atender à rampa de carga, fenômeno conhecido como a "curva do pato".
Esses fatos são de amplo conhecimento dos agentes do setor, dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e de grande parte da população, devido à cobertura midiática. Ou seja: o problema está exposto. Mas o que está sendo feito na prática?
A introdução acelerada de fontes renováveis nos últimos anos trouxe instabilidade ao sistema elétrico. Isso ocorreu tanto pelo excesso de oferta em relação ao mercado quanto pela intermitência e inflexibilidade desse perfil de geração, impulsionado majoritariamente por um excesso de subsídios e incentivos.
Como consequência, criaram-se gargalos operacionais. Até o momento, a solução imediata tem sido o corte da geração centralizada. Em 2025, esses cortes atingiram cerca de 30% da energia produzida pelas usinas eólicas e solares centralizadas, além do vertimento não turbinável de usinas hidrelétricas. Recentemente, inaugurou-se também o corte de gerações distribuídas (tipo 3), acionadas pelas distribuidoras - as quais, vale destacar, não são as causadoras principais desse fenômeno.
Soluções mais estruturantes estão programadas, como a instalação de um grande parque de geração de capacidade através do LRCAP (formado essencialmente por usinas térmicas e hidráulicas) e a previsão de um leilão de baterias para absorver os excessos de geração nos horários de sobra e injetá-los nos momentos de maior escassez.
Sem dúvida, são saídas tecnicamente adequadas para trazer maior segurança e reduzir o risco de apagões no Sistema Interligado Nacional (SIN). No entanto, elas resolvem apenas as consequências do problema, sem que a sua causa raiz seja tratada.
Adotar soluções de alto custo, que trarão aumentos significativos nas tarifas pagas pelos mercados regulado e livre, possui um caráter ainda mais perverso. Ao mitigar os gargalos atuais do sistema, essas medidas permitirão que as fontes que hoje encontram dificuldades de conexão injetem ainda mais energia, ampliando a sobreoferta. Isso demandará novos investimentos em usinas de capacidade, mais baterias e, por consequência, novos aumentos tarifários, alimentando um ciclo vicioso.
E por que chegamos a essa situação?
Se analisarmos o histórico, veremos que pulamos fases essenciais do processo de diagnóstico - deliberadamente ou por esquecimento -, trocando análises concretas por narrativas. Alimentou-se a crença de que seria possível instalar, sem limites, fontes que não asseguram flexibilidade, continuidade e potência ao sistema.
É importante recordar que, há muito tempo, debate-se no Brasil a necessidade de estabelecer os chamados "atributos das fontes", mecanismo pelo qual se deveria identificar os custos e benefícios de cada tecnologia, sinalizando preços que reflitam essa realidade. Se isso tivesse sido feito, teríamos identificado as reais causas do problema, tratando-as de forma correta e balizando o futuro com assertividade.
Se uma fonte produz energia de forma contínua e entrega potência ao sistema, ela não pode ter o mesmo valor de mercado que outra que não assegura esses benefícios. Da mesma forma, aquela que causa menor impacto ambiental não pode ser avaliada de maneira idêntica às que produzem maior dano à atmosfera. Tudo isso precisa ser pesado de forma matemática e equilibrada.
Ao negligenciarmos essa lógica, agimos de forma comparável a um médico que, ao receber um paciente com febre superior a 39 °C, receita apenas um antitérmico e ignora a infecção real, mesmo tendo em mãos exames laboratoriais que fecham o diagnóstico da doença (cabe aqui um esclarecimento: a analogia ao médico é meramente figurativa e ilustrativa).
Não há mais tempo a perder. Precisamos refazer a nossa análise de causa raiz e, acima de tudo, respeitar e aplicar o seu resultado, para manter a devida segurança operacional e reduzir os custos para os consumidores de energia elétrica.



