O interesse de fundos estrangeiros no petróleo brasileiro
Opinião
O interesse de fundos estrangeiros no petróleo brasileiro
A postura de maior interesse pela Petrobras chama a atenção por ocorrer em um momento de alta de preço do papel, ainda que carregado de volatilidade, e não de baixa, afastando a possibilidade de atuações de curto prazo
No último dia 13 de julho, a Petrobras informou que a GQG Partners havia ajustado sua participação em ações ordinárias (ON) e ADR's da companhia para 4,99% do total emitido, o que equivale a 185,87 milhões de ações. A atuação da gestora norte-americana foi uma redução da posição reportada em maio, quando informou à estatal que havia atingido 187,2 milhões de ações, o correspondente a 5,03% do total emitido.
A sutileza confirma a intenção do fundo de investimentos de não ter cadeira no conselho de administração, prerrogativa dos acionistas que detém mais de 5% do total de ações em balanço. A informação foi tornada pública atendendo à determinação da CVM a respeito de flutuações em torno de 5% para garantir transparência e a simetria de informações, além de precaver o mercado sobre possíveis efeitos sobre os preços decorrentes de movimentos de grandes players.
Por outro lado, sair da zona de notificação é um objetivo da gestora, já que ao não permanecer no alvo regulatório no âmbito das informações públicas, a GQG não fica sob escrutínio de suas decisões podendo orbitar em torno da zona que dá direito ao conselho, sem necessariamente expor suas movimentações em mercado.
Isso leva ao ponto central a ser extraído da estratégia que é de estar próxima às decisões, acompanhar a definição de planejamentos de longo prazo e simultaneamente ter acesso a informações estratégicas. Tudo isso sem precisar tomar as decisões de fato.
A postura de maior interesse pela Petrobras chama a atenção por ocorrer em um momento de alta de preço do papel, ainda que carregado de volatilidade, e não de baixa, afastando a possibilidade de atuações de curto prazo. Ao pagar um preço para ficar próximo dos 5% que não é o custo de oportunidade, a sinalização não é apenas de confiança na governança da companhia, mas de desejo de participar do futuro do setor no Brasil.
Os fundamentos se dão pelas reservas em expansão até 2030, pelos custos de produção baixíssimos e pela capacidade elevada de geração de lucros. A maioria dos modelos de predição aponta que a companhia é capaz de gerar lucros com preço do barril a partir de 45 dólares, bem abaixo da maioria das companhias globais.
O posicionamento da GQG na Petrobras tem início em 2021 atraída pela venda non core de ativos e retorno de caixa aos acionistas. Naquele momento, o P/L registrava uma grandeza de 3x, contra 6 a 10x das demais companhias estrangeiras. Em 2023, outro aumento de participação por acreditar que o papel estava subapreciado por ceticismo do investidor brasileiro que não percebia que mesmo com novo governo a diretoria manteria uma postura pró-mercado.
O movimento recente mais forte, de maio deste ano, ocorreu, no entanto, fora da tese de preço descontado. Trata-se de um ajuste de balanço tendo como foco a possibilidade de extração de bons dividendos sustentados por um capex bastante voltado para E&P.
Há que se notar que a decisão por um outro lado serve, não como um hedge, postura que não seria tomada por um grande fundo de investimento já que não se faz hedge com ações, mas como um posicionamento estratégico que
1) busca antecipar um movimento no setor que atrai cada vez mais investimentos na América do Sul e África, uma expansão da fronteira de produção de óleo e gás, sobretudo após a guerra contínua na Rússia e no Oriente Médio e
2) captar futuros retornos do setor já que as principais estatais árabes não são listadas em bolsa.
Portanto ter na carteira uma empresa sólida que esteja imersa nos planos de expansão do setor na próxima década como a Petrobras é uma estratégia mais ampla que mera aposta.



