Terras Raras: oportunidade na nova geopolítica industrial

Opinião

Terras Raras: oportunidade na nova geopolítica industrial

A questão que se coloca não é se o país possui recursos minerais suficientes para ocupar posição de destaque no cenário internacional. A verdadeira questão é se saberá transformar essa riqueza natural em conhecimento, tecnologia, indústria e competitividade

Por João Clark

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Enquanto o mundo acompanha a expansão da inteligência artificial, a eletrificação da economia e a corrida por fontes de energia de baixa emissão de carbono, uma transformação menos visível, mas igualmente decisiva, está redesenhando o equilíbrio geopolítico global. No centro dessa mudança não estão apenas os algoritmos, os semicondutores ou as baterias de última geração, mas um conjunto de dezessete elementos químicos cuja importância estratégica cresceu exponencialmente nas últimas duas décadas: as terras raras.

Embora utilizadas em quantidades relativamente pequenas, essas substâncias tornaram-se indispensáveis para tecnologias que definem a competitividade industrial das nações. Motores de veículos elétricos, turbinas eólicas de grande porte, equipamentos médicos, sistemas de telecomunicações, robôs industriais, satélites, radares, mísseis guiados, computadores de alto desempenho e centros de processamento de dados dependem, em maior ou menor grau, de elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Não se trata apenas de minerais; trata-se de insumos que sustentam a infraestrutura tecnológica da economia contemporânea.

A crescente demanda por esses materiais alterou profundamente a forma como governos e empresas enxergam a segurança das cadeias de suprimento. Se durante grande parte do século XX a estabilidade econômica esteve associada ao acesso a petróleo e gás natural, no século XXI ela passa, cada vez mais, pela disponibilidade de minerais críticos.

Essa mudança de paradigma explica por que as terras raras deixaram de ser um tema restrito a geólogos e engenheiros de minas para ocupar espaço crescente nas estratégias nacionais de Estados Unidos, União Europeia, Japão, Coreia do Sul e outras economias industrializadas. O objetivo comum é reduzir vulnerabilidades decorrentes da elevada concentração da produção e, principalmente, do processamento desses elementos em um único país: a China.

Nas últimas três décadas, Pequim implementou uma política industrial de longo prazo que integrou mineração, processamento químico, metalurgia, fabricação de ligas especiais e produção de ímãs permanentes. Mais do que ampliar sua participação na oferta mundial de matérias-primas, o país estruturou uma cadeia produtiva completa, verticalizada e tecnologicamente sofisticada. O resultado foi a construção de uma posição dominante que dificilmente encontra paralelo em outro segmento da indústria mineral.

Frequentemente, essa liderança é atribuída à dimensão das reservas chinesas. A explicação, embora parcialmente correta, é insuficiente. O verdadeiro diferencial da China não está apenas na geologia. Está na capacidade de transformar recursos minerais em conhecimento industrial, domínio tecnológico e capacidade manufatureira.

Essa distinção é fundamental para compreender a dinâmica atual do mercado.

O debate internacional costuma concentrar-se na abertura de novas minas, na descoberta de reservas e no aumento da produção mineral. Entretanto, a mineração representa apenas o primeiro elo de uma cadeia produtiva muito mais complexa. O valor econômico das terras raras cresce progressivamente à medida que o material avança pelas etapas de concentração, separação química, metalização, produção de ligas metálicas, fabricação de superímãs e incorporação em equipamentos de alta tecnologia. É nessas fases que se concentram a maior parte da propriedade intelectual, das competências industriais e das margens econômicas do setor.

Sob essa perspectiva, a disputa internacional deixou de ser apenas pelo acesso ao minério. Ela passou a ser uma disputa pela captura das etapas mais sofisticadas da cadeia de valor.

É exatamente nesse cenário que o Brasil emerge como um dos protagonistas mais promissores da nova geopolítica dos minerais críticos.

Argilas iônicas: diferencial competitivo do Brasil

Durante décadas, o país consolidou sua reputação como um dos maiores produtores mundiais de minério de ferro, bauxita, manganês e nióbio. Essa tradição mineradora, associada a uma base geológica excepcionalmente diversificada, permitiu o desenvolvimento de competências técnicas, infraestrutura e ambiente institucional capazes de sustentar novos ciclos de investimento.

No caso das terras raras, contudo, existe um diferencial adicional.

Além da dimensão de seu potencial geológico, o Brasil possui importantes ocorrências associadas a depósitos de argilas iônicas, um tipo de mineralização relativamente raro no mundo e considerado particularmente atrativo sob os pontos de vista técnico, econômico e ambiental.

Diferentemente dos depósitos de rocha dura, predominantes em diversas regiões produtoras, as argilas iônicas resultam de processos naturais de intemperismo que concentraram os elementos de terras raras nas camadas superficiais do solo por adsorção iônica. Essa característica pode reduzir a intensidade de determinadas etapas de beneficiamento e, em muitos casos, está associada a menores teores de elementos radioativos, contribuindo para uma gestão ambiental potencialmente mais favorável quando comparada a determinados depósitos convencionais.

Essa vantagem geológica vem despertando crescente interesse internacional.

Nos últimos anos, empresas australianas, canadenses e norte-americanas intensificaram investimentos em projetos brasileiros, refletindo não apenas o potencial mineral do país, mas também uma estratégia mais ampla de diversificação das cadeias globais de suprimento.

A entrada em operação da Serra Verde, em Minaçu (GO), representou um marco nesse processo ao estabelecer a primeira produção comercial em larga escala de terras raras fora da Ásia capaz de fornecer os quatro elementos magnéticos de maior valor econômico — neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

Paralelamente, projetos como Caldeira, Colossus, Carina e as iniciativas de reaproveitamento de rejeitos em Pitinga demonstram que o Brasil reúne um conjunto de ativos capaz de posicioná-lo entre os principais fornecedores mundiais de terras raras nas próximas décadas.

Seria um erro, entretanto, interpretar esse movimento apenas como uma expansão da atividade mineradora.

A verdadeira oportunidade brasileira não reside exclusivamente na capacidade de produzir mais concentrados minerais. Ela está na possibilidade de construir, de forma gradual e consistente, competências industriais que permitam ao país capturar parcelas crescentes da cadeia global de valor.

É justamente nesse ponto que a experiência chinesa oferece a principal lição estratégica. A liderança construída por Pequim não decorreu apenas da abertura de minas ou da ampliação da produção mineral. Resultou de uma política industrial que compreendeu, antes dos demais, que o poder econômico seria determinado pelo domínio das etapas de maior intensidade tecnológica.

Da geologia à estratégia industrial

O Brasil reúne uma combinação rara de atributos: importantes depósitos de terras raras, vantagens geológicas associadas às argilas iônicas, tradição na mineração, matriz elétrica predominantemente renovável, competência técnica consolidada e crescente interesse de investidores internacionais. Poucas nações dispõem, simultaneamente, dessas condições.

No entanto, seria um equívoco interpretar esse potencial como garantia de protagonismo. A experiência chinesa demonstra que a vantagem competitiva resultou de uma estratégia industrial consistente, capaz de integrar pesquisa científica, processamento químico, metalurgia, fabricação de ligas metálicas, produção de superímãs e desenvolvimento de uma cadeia manufatureira de alta tecnologia.

É justamente nessa cadeia que reside o maior desafio brasileiro.

A mineração constitui apenas o primeiro elo do processo produtivo. Em seguida vêm a concentração do minério, a separação química individual dos elementos, a metalização — etapa em que os óxidos de terras raras são convertidos em metais de elevada pureza —, a produção de ligas especiais e a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Cada uma dessas etapas incorpora conhecimento, propriedade intelectual e crescente valor agregado.

A metalização merece atenção especial. Muito menos conhecida do que a mineração ou mesmo a separação química, ela representa um dos principais gargalos tecnológicos da indústria mundial de terras raras. Trata-se de um processo metalúrgico sofisticado, intensivo em energia, engenharia de materiais e controle de processos, que determina a qualidade dos metais utilizados na produção de ligas e superímãs. Não por acaso, essa etapa permanece fortemente concentrada na China, consolidando uma posição estratégica construída ao longo de décadas.

Mais do que controlar metais, quem domina a metalização controla a capacidade de produzir componentes indispensáveis para motores elétricos de alta eficiência, turbinas eólicas, equipamentos aeroespaciais, sistemas de defesa, robótica, inteligência artificial e inúmeras outras aplicações críticas.

Esse domínio explica por que Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Reino Unido vêm ampliando investimentos em pesquisa e desenvolvimento voltados à separação química, metalização, produção de ligas especiais e fabricação de ímãs permanentes.

O exemplo do petróleo

Por esta razão, o desenvolvimento da mineração nacional deve ser compreendido como o início de um processo mais amplo de construção industrial, e não como seu objetivo final. A produção mineral cria escala, atrai investimentos, forma recursos humanos, estimula pesquisa aplicada e estabelece as bases para a incorporação gradual das etapas de maior valor agregado.

A trajetória da indústria brasileira do petróleo oferece um paralelo elucidativo. O país não se tornou referência mundial em exploração de águas profundas apenas por descobrir reservas. Essa posição foi construída ao longo de décadas por meio de investimentos contínuos em pesquisa, engenharia, desenvolvimento de fornecedores, inovação e formação de capital humano. As terras raras poderão seguir caminho semelhante, desde que inseridas em uma estratégia nacional de longo prazo.

Isso exigirá políticas públicas estáveis, ambiente regulatório previsível, estímulos à inovação, financiamento competitivo e, sobretudo, estreita articulação entre universidades, centros de pesquisa, empresas de mineração, indústria química, setor metalúrgico e fabricantes de produtos de alta tecnologia.

Mais do que uma política mineral, trata-se de uma política industrial. Mais do que uma oportunidade de exportação, trata-se de uma oportunidade de desenvolvimento.

 

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