Ciclos do petróleo e o desenvolvimento econômico

Opinião

Ciclos do petróleo e o desenvolvimento econômico

Os efeitos tradicionais decorrentes de choques nos preços do petróleo passam a afetar a economia brasileira de forma contrária. Tal quadro ficou em evidência com a atual crise do petróleo causada pela guerra entre EUA e Israel versus Irã

Por Osmani Pontes

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Ao longo do século XX, a história econômica brasileira orbitou em torno do debate sobre os ciclos de commodities que condicionavam os padrões de crescimento econômico internos. Por diferentes formas e razões, o comportamento dos preços do café na primeira metade do século e do petróleo no último terço do século passado afetaram a política econômica interna de forma constante, impondo uma típica restrição externa característica de economias da América Latina em desenvolvimento.

No caso do petróleo, os dois choques dos anos 1970 levaram a uma evasão da dependência dos combustíveis fósseis com o começo da pesquisa do etanol, que se consolidou como alternativa crível nos últimos 15 anos e que, se não logrou sucesso na autonomia em relação aos fósseis, obteve ao menos a redução da dependência daqueles.

De fato, após os choques dos anos 1970, a economia brasileira respondia de maneira semelhante a crises no mercado de óleo e gás, a saber, uma apreciação do preço internacional do petróleo em um primeiro momento impunha perdas na conta comercial brasileira já que até então a economia do país era importadora líquida de petróleo.

Esse efeito provocava imediata depreciação da moeda local em relação às divisas internacionais, o que por sua vez desencadeava um repasse inflacionário que se somava ao efeito posterior de alta dos preços internos dos combustíveis. Um espiral perverso que ainda reduzia as taxas de crescimento econômico já que a indústria local enfrentava restrição para expansão da oferta, um clássico problema estrutural de crescimento.

Esse padrão começa a ser alterado quando a economia brasileira alcança a autossuficiência em petróleo, ainda que haja a dependência ao gás importado boliviano. Com isso, os efeitos tradicionais decorrentes de choques nos preços do petróleo passam a afetar a economia brasileira de forma contrária.

Tal quadro ficou em evidência com a atual crise do petróleo causada pela guerra entre EUA e Israel versus Irã. Trata-se do maior choque do petróleo em mais de 50 anos e, no entanto os únicos impactos sentidos pela economia são os usuais, de inflação de combustíveis que podem ser mitigados com medidas pontuais do governo. Situação que afeta praticamente todos os países do mundo.

Quando observamos, o comportamento da conta comercial e mais precisamente da taxa de câmbio vemos um efeito atípico quando comparado às crises do século XX. A taxa de câmbio dólar x real experimentou seu nível mais baixo (moeda local apreciada) nos últimos 3 anos, rompendo para baixo a barreira dos 5 reais.

Isto permitiu ao Banco Central promover uma operação que não realizava há 10 anos, a compra de dólar futuro para manejar as reservas cambiais, de modo a criar uma espécie de margem para acomodar choques adversos no futuro.

A oportunidade se deu graças à entrada de recursos externos resultantes da mudança de preço do petróleo exportado, mesmo supondo as quantidades constantes de exportação. Isso ocorreu a despeito do cenário de incerteza da política monetária.

Essa discussão é importante, mas não deve ser expandida para além de efeitos macroeconômicos, o que nos impossibilitaria de enxergar os problemas desse modelo de inserção comercial. Afinal, o Brasil ainda depende em alguma medida da importação de combustíveis por conta de limitações do parque de refino interno.

Este, por sinal, é um problema que encontra limitações para ser solucionado no longo prazo, haja vista a insuficiente oferta de capital por parte do setor bancário a um mercado que possui risco elevado, longos prazos de maturidade do investimento e taxas de juros historicamente altas, quadro que praticamente exige que os investimentos dependam do governo.

Finalmente, essa análise não deve criar a ilusão de que a política industrial do país não deve se mover em busca de fontes alternativas de energia. A transição energética segue imperativa na agenda de desenvolvimento, como já foi comprovado no passado quando se apostou no biocombustível. Assim, um debate não deve interditar o outro, pois é possível discutir o fortalecimento da competitividade e da oferta na cadeia de petróleo e gás, mas também a transição energética.

Também é válido aproveitar o momento para refletirmos sobre em que medida os ganhos decorrentes do choque do petróleo não estão sendo capturados para retornos sociais e apenas macroeconômicos.

Nesse sentido, o debate sobre o melhor uso e direcionamento dos recursos do fundo soberano voltam a se colocar no centro das discussões, tanto em relação aos recursos do pré-sal quando da margem equatorial. Afinal, uma das razões de se pensar alternativas ao petróleo é justamente sua volatilidade e dependência da geopolítica.

Da mesma forma que devemos aproveitar os ganhos quando se colocam, devemos nos preparar para a fase adversa que em algum momento o ciclo trará novamente, sendo que agora estamos do lado oposto do que nos acostumamos ao longo dos anos 1970-2000.

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