Opinião
Como na Copa, o Brasil ainda não saiu do aquecimento
Brasil potência florestal. Brasil potência em produção de alimentos. Brasil potência em energia limpa. Brasil potência em minerais críticos. De todas as “potências”, apenas a produção de alimentos merece hoje, de fato, essa qualificação
Engenheira que sou, já usei muitas vezes a fórmula potência = trabalho realizado. Mas nunca tinha parado para pensar no quanto ela resume bem a situação do nosso Brasil até ouvir a ministra Izabella Teixeira usar essa fórmula no podcast Clima na Faria Lima. Não é a primeira vez que uso uma fala dela, sempre pedindo a devida permissão.
Na física, a definição correta mede, na verdade, quão rápido um trabalho foi realizado. Outra forma de pensar: se duas pessoas executam o mesmo trabalho, quem faz mais rápido desenvolve maior potência. E essa definição serve igualmente bem para o tema de hoje.
Brasil potência florestal. Brasil potência em produção de alimentos. Brasil potência em energia limpa. Brasil potência em minerais críticos. Definindo potência como trabalho realizado de forma eficiente — aquele que transforma recursos em riqueza e benefícios concretos — diria que, de todas as “potências”, apenas a produção de alimentos merece hoje, de fato, essa qualificação.
A agricultura brasileira cresceu vertiginosamente nas últimas décadas. No início dos anos 1980, o Brasil produzia cerca de 47 milhões de toneladas de grãos em aproximadamente 37 milhões de hectares. Na última safra, produzimos quase 350 milhões de toneladas em menos de 82 milhões de hectares. A produção cresceu quase sete vezes, enquanto a área plantada não chegou a aumentar 2,5 vezes.
No país da baixa produtividade do trabalho, o aumento de produtividade no campo responde por quase dois terços desse crescimento, o que significa relativamente pouca expansão de área plantada e, portanto, menor impacto em desmatamento. Mais ainda: nas principais regiões produtoras, o agricultor brasileiro é obrigado a preservar 20% da propriedade.
A agropecuária responde por cerca de 25% do PIB brasileiro — considerando toda a cadeia, incluindo insumos, agroindústria e logística — e por aproximadamente metade das exportações do país, algo próximo de USD 170 bilhões por ano. Além de alimentar um país de mais de 200 milhões de habitantes, o Brasil se tornou responsável por cerca de 10% da produção global de alimentos.
Falemos de florestas. São 486 milhões de hectares de floresta nativa no Brasil, ocupando quase 60% do território nacional. Estamos falando do equivalente a 680 milhões de campos de futebol — para seguir no tema do momento — ou mais de duas vezes a área da Europa sem a Rússia, continente que tantas vezes usa o discurso ambiental como protecionismo disfarçado. As florestas brasileiras absorvem entre 1,5 e 2 bilhões de toneladas de carbono por ano. A USD 10 por tonelada de CO₂, por exemplo, isso poderia representar quase USD 20 bilhões anuais.
Mas esse carbono absorvido hoje não gera riqueza alguma para o país. Não conseguimos resolver adequadamente o problema fundiário nem garantir segurança jurídica e proteção efetiva às áreas preservadas, elementos fundamentais para assegurar a permanência dos créditos de carbono. Sem isso, o interesse internacional permanece limitado.
Ainda assim, poderíamos ao menos reconhecer os chamados créditos de conservação na nossa própria meta de descarbonização (NDC), já que essa definição é discricionária. Com isso, sobrariam créditos de alta integridade — de reflorestamento ou biometano, por exemplo — para exportação valendo bem mais do que USD 10/t.
O desmatamento finalmente volta a cair, e há mérito nisso. Mas seguir sem transformar floresta em riqueza concreta, sem criar incentivos econômicos reais e sustentáveis à conservação, é continuar sonhando apenas com potencial.
Agora, energia limpa. Estamos cansados de ouvir que temos uma das matrizes elétricas mais limpas e competitivas do mundo. Que ela é limpa, não há discussão. Mas uma parcela importante dessa competitividade se perde no caminho entre a geração e o consumidor final.
Ao longo dos anos, o sistema elétrico acumulou subsídios, distorções e penduricalhos: térmicas emergenciais a diesel e carvão, conta de consumo de combustível dos sistemas isolados, ausência de sinal econômico adequado na transmissão, CDE, quebra-quebra de comercializadoras, incentivos mal calibrados à geração distribuída e assim por diante. Tudo isso soma algo próximo de R$ 100 bilhões por ano — cerca de 1% do PIB brasileiro. Em contrapartida, quanto cresceu a produção industrial brasileira atraída por essa energia limpa?
O que dizer do exagero nos incentivos à expansão eólica e solar que, somado ao mau planejamento do sistema, físico e energético, criou o problema do curtailment, o corte forçado de geração? As perdas anuais podem chegar a R$ 6 bilhões.
Um país como o Brasil se dá hoje ao luxo de desperdiçar mais de 3 GW médios, ou 28 TWh por ano. Para ilustrar: 28 TWh equivalem ao consumo anual de uma cidade do tamanho do Rio de Janeiro ou de Madrid e seriam suficientes para produzir cerca de 2 milhões de toneladas de alumínio primário — algo próximo de 3% da produção mundial — ou alimentar cerca de 20 megadatacenters de inteligência artificial.
Como se não bastasse o absurdo, parte do setor segue aguardando mais uma solução governamental, enquanto muitos geradores demonstram enorme resistência em vender essa energia a preços mais baixos para atrair soluções de mercado, como datacenters ou mineração de bitcoin. A solução é mais complexa, claro. Envolve segurança de fornecimento e disponibilidade horária da energia. Mas o absurdo permanece.
Aproveitando o tema dos datacenters: temos praticamente tudo para atrair alguns dos maiores projetos do mundo — energia limpa, estabilidade geopolítica relativa, distância segura de grandes conflitos e um sistema elétrico interligado. Mesmo assim, seguimos patinando em marco regulatório, incentivos à importação de equipamentos e segurança cibernética, desperdiçando potencialmente mais uma oportunidade.
A indústria de gás natural é outro exemplo melancólico. Excluindo o consumo termelétrico, que é altamente volátil, o consumo industrial de gás encolheu cerca de 30% na última década. A rede de transporte praticamente não evoluiu nesse período, frustrando o discurso da interiorização do gás como vetor de desenvolvimento industrial. As redes de distribuição cresceram cerca de 20%, mas seguem concentradas em regiões já atendidas e densamente povoadas.
Somos hoje um país que reinjeta praticamente o dobro do seu consumo industrial de gás natural, paga quase cinco vezes o preço praticado nos Estados Unidos (antes mesmo dos custos de distribuição, comercialização e impostos que aumentam esta diferença) e ainda mantém um gasoduto ocioso para importar gás de um país que pouco investiu em produção nas últimas décadas. Enquanto isso, importamos mais de 70% dos fertilizantes nitrogenados que poderiam ser produzidos localmente a partir de gás natural competitivo.
Nossa indústria petroquímica, altamente dependente de nafta, sofre para competir com países que aproveitaram o gás barato para desenvolver cadeias inteiras. Os Estados Unidos, por exemplo, adicionaram cerca de 40% de capacidade de produção de etileno após a revolução do shale gas, transformando uma indústria antes considerada em declínio em uma das petroquímicas mais competitivas do mundo.
Só que o tempo não para. A transição energética avança, o custo da energia renovável cai rapidamente, o transporte se eletrifica. Quando o Brasil finalmente acordar, talvez o gás nem seja mais considerado combustível de transição.
Por fim, vale sempre lembrar da China — muito menos abençoada em recursos naturais do que muitos de seus pares. Com planejamento e foco, a China se tornou líder mundial em equipamentos solares, criou uma indústria de veículos elétricos capaz de desestabilizar a indústria automobilística global e domina hoje os principais elos da cadeia de minerais críticos.Ainda que não controle a mineração na mesma proporção, domina cerca de 85% a 90% da separação, aproximadamente 75% do refino e perto de 80% da manufatura global desses minerais.
Enquanto isso, mesmo estando entre os cinco países com maiores reservas de minerais críticos do mundo, seguimos presos ao velho dilema entre exportar commodities ou agregar valor.Talvez devêssemos olhar para o tema de forma mais estruturada e sequencial: começar gerando valor nos elos menos complexos da cadeia e, a partir daí, desenvolver gradualmente um projeto industrial consistente.
E não me venham com a desculpa de que os Estados Unidos são uma economia desenvolvida ou que a China é uma ditadura planejada para justificar qualquer coisa. Planejamento de verdade não pode depender de ideologia política. Planejamento é, acima de tudo, política de Estado.
De nada adianta estar deitado eternamente em berço esplêndido, como diz nosso hino. Potência só se transforma em riqueza com visão estratégica, planejamento, trabalho, organização e disciplina.
Continuo torcendo pela nossa seleção. Mas mais do que o sonho do hexa, quero ver bem acordada o Brasil aproveitar as oportunidades.



