O Brasil precisa de um novo Plano do Gás

Opinião

O Brasil precisa de um novo Plano do Gás

Com a entrada em operação de novos projetos, como Raia, e a tendência de retração no mercado convencional, o país poderá enfrentar excedentes de gás nos próximos anos. Dos cerca de 2 milhões de caminhões, apenas 0,1% roda com GNC. Um mercado praticamente inexplorado

Por Bruno Armbrust

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Apesar dos avanços ainda modestos observados no mercado interno, já é possível perceber uma mudança positiva no posicionamento da Petrobras, que busca se adaptar à nova realidade do setor. Não há dúvida de que a companhia teve papel decisivo na formação do mercado brasileiro de gás natural. Entretanto, o contexto mudou e o mercado também.

A recente revisão de sua política comercial revela uma empresa preocupada não apenas em defender sua posição, mas também em preservar a competitividade do gás natural.

Mesmo com a redução de seu market share, a Petrobras continua sendo formadora de preços e seus movimentos tendem a influenciar o comportamento dos demais comercializadores. Por isso, as políticas voltadas ao desenvolvimento do mercado de gás precisam ser estruturais e de longo prazo e não apenas respostas conjunturais às condições momentâneas do mercado.

As perspectivas do lado da oferta são positivas. Embora se projete uma redução gradual do fornecimento de gás boliviano nos próximos anos, sua falta poderá ser compensada pelo aumento da oferta nacional, em parte por gás argentino e, em menor escala, por novos projetos de biometano.

Do lado do GNL, a produção e exportações do gás liquefeito dos EUA alcançam níveis recordes e se espera um crescimento de cerca de 10% em 2027, impulsionado pelo início de novos grandes projetos de liquefação na costa do Golfo. O GNL contribui na diversificação da origem, na flexibilidade e no aumento da segurança energética.

O principal ponto de atenção, portanto, deixa de ser a oferta e passa a ser a demanda. Com a entrada em operação de novos projetos, como Raia, e a manutenção da retração observada no mercado convencional, o país poderá enfrentar excedentes de gás nos próximos anos.

A experiência do período pós-racionamento de energia oferece uma lição importante. Naquele momento, a redução da demanda elétrica deixou as termelétricas praticamente paradas e a Petrobras respondeu com o Plano de Massificação do Uso do Gás. A estratégia, baseada principalmente na redução dos preços, impulsionou o consumo e permitiu a expansão do mercado, especialmente no segmento de veículos leves.

O cenário atual é diferente. Embora o despacho termelétrico tenha crescido no início de 2026, as usinas continuarão sendo acionadas principalmente para compensar a intermitência das fontes renováveis. Ainda assim, esse consumo dificilmente retornará aos níveis observados em períodos anteriores.

No mercado convencional, os sinais também são preocupantes. Com exceção dos segmentos residencial e comercial, impulsionados pela conexão de novos consumidores pelas distribuidoras, mas ainda com participação limitada na demanda total, os demais mercados vêm apresentando retração persistente.

A recente redução do preço do gás no Rio de Janeiro, promovida pela Petrobras, procura responder à forte queda do mercado local. A medida é positiva, mas pode ter chegado tarde para o segmento de veículos leves, que já enfrenta um processo gradual de substituição por modelos híbridos e elétricos.

No mercado de GNV, o combustível perdeu competitividade ao longo dos últimos anos e agora enfrenta um novo desafio: a rápida evolução dos veículos eletrificados. Em muitos casos, modelos híbridos e elétricos já apresentam custo operacional inferior e preços de aquisição próximos ou até inferiores aos dos veículos convencionais. Embora persistam dúvidas relacionadas à revenda e à assistência técnica, essas barreiras tendem a diminuir rapidamente.

O resultado é que o mercado brasileiro de gás natural encolheu. Se compararmos o consumo atual do mercado convencional com os anos de maior demanda, a retração alcança cerca de 20%, o equivalente a aproximadamente 10 milhões de m3/dia. Em termos práticos, o consumo de gás natural retrocedeu quase duas décadas.

Em um contexto de transição energética, no qual combustíveis fósseis são progressivamente desestimulados em diversas partes do mundo, o Brasil precisa acelerar a abertura do mercado e estruturar políticas voltadas para novos usos do gás natural.

Se os mercados que sustentaram a expansão do gás natural nas últimas décadas apresentam sinais de esgotamento ou maturidade, torna-se necessário identificar novos segmentos capazes de absorver volumes significativos de gás de forma contínua e previsível. Nesse contexto, a substituição parcial do diesel no transporte de cargas e de passageiros surge como a alternativa de maior potencial para sustentar o crescimento do mercado brasileiro de gás natural nos próximos anos.

Embora o Brasil tenha alcançado níveis recordes de produção de petróleo em 2026, o parque nacional de refino ainda não é capaz de atender integralmente à demanda por diesel, mantendo uma dependência relevante de importações.

O consumo nacional desse combustível gira em torno de 70 bilhões de litros por ano. Em equivalente energético, esse volume corresponde a aproximadamente 207 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia. Atualmente, a produção nacional atende cerca de 70% a 75% da demanda interna, enquanto o volume importado de diesel equivale a algo entre 50 e 60 milhões de metros cúbicos diários de gás natural.

O transporte rodoviário de cargas responde por aproximadamente 80% do consumo nacional do combustível, seguido pelo agronegócio e pela indústria. Praticamente toda a frota de caminhões do país utiliza diesel como fonte de energia.

Estima-se que existam cerca de dois milhões de caminhões licenciados no Brasil. Desses, menos de 0,1% utilizam gás natural comprimido (GNC). Trata-se de um mercado praticamente inexplorado.

Em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e volatilidade nos preços do petróleo, essa dependência das importações representa um fator adicional de vulnerabilidade para a economia brasileira, ampliando riscos inflacionários e de abastecimento.

Por sua vez, os mercados que impulsionaram a demanda de gás natural no início deste século - indústria, veículos leves e geração elétrica - apresentam forte retração e dificilmente voltarão a desempenhar o mesmo papel nos próximos anos.

O uso do gás natural em veículos leves enfrentará concorrência crescente dos modelos híbridos e elétricos. Diante desse cenário e da perspectiva de expansão da oferta de gás, os investimentos destinados à produção, ao escoamento, ao transporte e à distribuição exigem a existência de um mercado firme, previsível e com potencial de crescimento.

Nesse contexto, a substituição parcial do diesel por gás natural reúne atributos capazes de transformar o setor. Além de criar demanda adicional para o gás, contribuiria para reduzir a dependência externa, fortalecer a segurança energética nacional, estimular investimentos e gerar benefícios ambientais relevantes.

Em tempos de transição energética, planejar a expansão da infraestrutura tornou-se mais complexo. Isso reforça a necessidade de um planejamento integrado entre a expansão da oferta e o desenvolvimento da demanda.

A formulação de um programa nacional de substituição parcial do diesel no transporte de cargas e de passageiros reúne os elementos necessários para impulsionar uma nova etapa de crescimento do mercado brasileiro de gás natural, podendo se converter na nova âncora da expansão da infraestrutura de gás.

Os benefícios potenciais são expressivos: i. redução da dependência de importações em um setor estratégico para a economia nacional; ii. melhoria da balança comercial; iii. redução das emissões de poluentes e gases de efeito estufa; iv. redução do custo por quilômetro rodado, e v. criação de uma demanda adicional potencial da ordem de 50 milhões de metros cúbicos por dia, contribuindo para viabilizar investimentos em produção, escoamento, transporte e distribuição de gás natural.

O aumento da demanda firme de gás, além de estimular investimentos em infraestrutura e em novos projetos de produção nacional, contribuirá para a modicidade tarifária e para a consolidação de um mercado mais competitivo.

Os tempos mudaram. As políticas públicas voltadas ao gás natural precisam mudar com eles.

 

 

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