Flexibilidade e tarifas justas são essenciais ao Setor Elétrico

Opinião

Flexibilidade e tarifas justas são essenciais ao Setor Elétrico

As concessionárias de energia caminham para uma atuação mais próxima à dos operadores de distribuição do sistema (DSO), deixando de atuar apenas sobre a infraestrutura física e assumindo também um papel de coordenação dos recursos energéticos distribuídos

Por Letícia Dantas

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O sistema elétrico brasileiro operou por décadas com base em uma estrutura previsível e linear. Grandes hidrelétricas respondiam pela maior parcela da geração, as linhas de transmissão transportavam a eletricidade e as distribuidoras entregavam a carga em um fluxo predominantemente unidirecional.

No mundo de hoje, no entanto, essa lógica de mão única vem dando lugar a uma rede bidirecional, altamente dinâmica e complexa. A massificação da geração distribuída, com a energia solar em residências e comércios, e a mobilidade elétrica passaram a exigir um sistema não apenas para entregar eletricidade, mas também para receber a energia gerada na ponta.

Essa mudança estrutural gerou um grande paradoxo contemporâneo: ao mesmo tempo em que a matriz brasileira se consagra como uma das mais limpas do planeta, há um desequilíbrio diário significativo entre oferta e demanda.

O ONS projeta que, entre 2026 e 2030, pode haver cortes de geração renovável, o chamado curtailment energético, superiores a 40-50 GW por ano devido à combinação entre excedentes de oferta, perfil de demanda, limitações de transmissão e falta de flexibilidade operacional. Na prática, parte dessa energia limpa deixa de ser aproveitada porque o sistema ainda não dispõe de flexibilidade suficiente para responder à crescente variabilidade da oferta e da demanda, um desafio agravado pela maior frequência de eventos climáticos extremos.

É nesse cenário que a flexibilidade da rede deixa de ser uma mera opção tecnológica e passa a ser um elemento fundamental para a modernização do setor elétrico.

Historicamente, diante de aumentos estruturais de carga ou gargalos na rede, uma das principais respostas das distribuidoras tem sido reforçar e expandir a infraestrutura, por meio de novos circuitos, subestações e transformadores.

Essa expansão de infraestrutura física envolve investimentos elevados e parte deles é repassada para a conta de luz paga pelo cidadão comum. Além do peso financeiro desses investimentos, alguns dos quais continuarão sendo necessários, tais medidas não resolvem todos os desafios impostos pelo fluxo bidirecional e pela variação da demanda.

A revolução da flexibilidade está na combinação de ativos físicos, recursos energéticos distribuídos e inteligência digital na ponta da rede. As concessionárias de energia caminham para uma atuação mais próxima à dos operadores de distribuição do sistema (Distribution System Operator, DSO), deixando de atuar apenas sobre a infraestrutura física e assumindo também um papel de coordenação dos recursos energéticos distribuídos.

Isso significa equilibrar geração, consumo, armazenamento e qualidade da energia em tempo quase real, gerenciando de forma mais ativa os recursos que entram e saem da rede. Por meio de usinas virtuais de energia (VPPs), baterias inteligentes e programas de resposta de demanda, é possível coordenar geração, armazenamento e consumo em diferentes momentos, flexibilizando e equilibrando o sistema, além de reduzir a necessidade de investimentos em infraestrutura tradicional.

Para o consumidor final, que paga a conta de luz todo o mês, o debate técnico sobre flexibilidade deve ser traduzido em uma única métrica: o impacto direto no bolso. Ao otimizar a infraestrutura existente por meio da tecnologia, podemos reduzir ou postergar parte dos investimentos em expansão física da rede, contribuindo para conter pressões sobre a tarifa.

Flexibilidade, portanto, não significa necessariamente redução da conta de luz, mas pode tornar mais eficiente a alocação dos investimentos e dos custos do sistema.

Os resultados práticos dessa abordagem já são palpáveis no país. Em Palmas (TO), a Energisa desenvolveu, no âmbito do Programa de P,D&I regulado pela Aneel, a primeira VPP operacional do Brasil com ativos distribuídos conectados à rede de baixa tensão.

Com investimento de aproximadamente R$ 20 milhões, o projeto demonstrou que o uso coordenado de usinas híbridas e baterias aumentou em 25% a capacidade de escoamento da rede local, oferecendo estabilidade técnica sem a necessidade imediata de novas obras.

O armazenamento inteligente também permitiu realizar a modulação de consumo nos horários de pico (load shifting e peak shaving), resultando em uma economia de até 11% na conta de luz dos clientes que integram os testes, além de eliminar a necessidade de geradores a diesel ruidosos e poluentes.

Um dos principais desafios para que a flexibilidade energética deixe de ser um conjunto de projetos-piloto de sucesso e se transforme em um mercado escalável não é tecnológico. O Brasil tem distribuidoras já comprometidas com essa transformação, startups inovadoras, interesse de investidores internacionais e ferramentas digitais robustas.

Embora a Aneel tenha avançado em 2026 na regulamentação dos sistemas autônomos de armazenamento, o marco regulatório ainda não reconhece de forma completa os diferentes serviços que baterias, agregadores e usinas virtuais podem prestar à rede.

Uma bateria ou uma usina virtual não geram elétrons adicionais, mas gerenciam e transportam a energia no tempo e no espaço, entregando estabilidade e resiliência ao sistema. A regulação ainda não reconhece de forma clara o papel e a remuneração desses agregadores de flexibilidade e prestadores de serviços ancilares na rede de distribuição.

Há ainda uma dimensão econômica fundamental nessa transformação: os sinais de preço. Em um sistema cada vez mais descentralizado e volátil, preços e tarifas precisam refletir melhor o valor da energia no tempo, no local e nas diferentes condições da rede. Quando esses sinais são distorcidos, consumidores e agentes econômicos não têm incentivo para deslocar consumo, armazenar excedentes ou disponibilizar flexibilidade justamente quando o sistema mais precisa.

A modernização regulatória, portanto, não deve se limitar a reconhecer novas tecnologias, mas também criar os sinais econômicos e os mecanismos de mercado necessários para viabilizar novos modelos de negócio, como agregadores, resposta da demanda, armazenamento, tarifas dinâmicas e serviços de flexibilidade.

Mais do que remunerar ativos, o desafio passa a ser remunerar o valor que cada recurso entrega ao sistema.

O próximo passo é transformar essa capacidade tecnológica em um ambiente regulatório capaz de capturar todo o seu potencial. Isso significa criar regras claras para a atuação dos novos agentes, estabelecer mecanismos que valorizem os diferentes serviços prestados à rede e dar previsibilidade aos investimentos em inteligência, armazenamento e flexibilidade.

Sem essa evolução, continuaremos desperdiçando o imenso potencial de nossa energia limpa, enquanto o consumidor brasileiro arca com os custos de um sistema elétrico cada vez mais complexo.

 

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