Mercado Livre e os riscos de uma ferramenta poderosa
Opinião
Mercado Livre e os riscos de uma ferramenta poderosa
A abertura do mercado livre para a baixa tensão é uma oportunidade real. Mas oportunidade sem preparo vira armadilha. E o período que vai de agora até agosto representa a janela mais estratégica para o setor de gestão de energia
O mercado livre de energia elétrica brasileiro está prestes a viver sua maior expansão em décadas. A partir de novembro de 2027, consumidores comerciais e industriais atendidos em baixa tensão poderão migrar para o Ambiente de Contratação Livre (ACL), conforme estabelecido pela Medida Provisória 1.300/2025. É um movimento histórico e tenho acompanhado com entusiasmo genuíno o debate que ele está gerando no setor.
Mas tenho também uma preocupação que preciso colocar em voz alta: a euforia com a abertura não pode chegar antes da educação sobre os riscos.
Ao longo de mais de sete anos atuando na gestão de energia para empresas de diferentes portes, aprendi que o mercado livre é uma das ferramentas mais poderosas para a competitividade empresarial. Quando bem estruturado, ele gera economia real, previsibilidade orçamentária e autonomia estratégica.
O problema é que o mercado livre também pune quem entra sem preparo. E é exatamente esse cenário que pode se repetir em escala muito maior com a chegada das pequenas e médias empresas ao ACL.
O que muda com a baixa tensão
No ambiente regulado, o consumidor recebe uma fatura e não precisa entender o que está por trás dela. No ACL, ele passa a ser responsável por decisões que antes cabiam à distribuidora: a escolha do tipo de contrato, o prazo de vigência, o percentual de energia contratada em relação ao consumo real e a estratégia para lidar com as variações do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).
O PLD é definido semanalmente pela CCEE com base na disponibilidade hídrica e na oferta de energia no sistema. Em períodos de estiagem ou demanda elevada, ele pode atingir o teto regulatório. Empresas com contratos mal calibrados ficam expostas a esse mercado de curto prazo e podem ver qualquer projeção de economia se desfazer em questão de semanas.
Não estou falando de um risco teórico. Nos últimos anos, comercializadoras de grande porte enfrentaram sérias dificuldades financeiras exatamente por subestimar essa volatilidade. Para uma PME com menor capacidade de absorver choques de preço e menor familiaridade com os mecanismos do mercado, o impacto tende a ser proporcionalmente mais grave.
A escolha do parceiro também é risco
Outro ponto que precisa ser dito com clareza: preço não pode ser o único critério de decisão na hora de escolher com quem contratar no mercado livre. A estrutura financeira da comercializadora, sua capacidade de gestão de risco e sua solidez operacional são variáveis tão relevantes quanto o valor ofertado por megawatt-hora.
Um contrato assinado com um parceiro fragilizado pode gerar descontinuidade no fornecimento, exposição contratual não prevista e custos de regularização que superam qualquer desconto inicial. Esse é um aprendizado que o setor acumulou de forma dura e seria um desperdício deixar que as novas empresas que chegam ao ACL repitam os mesmos erros.
A janela entre agora e agosto é estratégica
Há também uma camada operacional que muitas PMEs ainda desconhecem. A migração para o mercado livre envolve registro na CCEE, acompanhamento das medições de consumo, cumprimento de prazos contratuais e, no caso da baixa tensão, a obrigatoriedade de representação por um comercializador varejista, conforme prevê a MP 1.300/2025. Empresas que subestimam essa complexidade operacional enfrentam problemas que vão além do financeiro.
Por isso, o período que vai de agora até agosto representa a janela mais estratégica para o setor de gestão de energia. É o momento em que empresas podem se preparar com calma, mapear seu perfil de consumo, entender os contratos disponíveis e escolher parceiros com capacidade técnica e financeira comprovada, antes de assumir as responsabilidades que o mercado livre exige.
A abertura para a baixa tensão é uma conquista. O universo de potenciais beneficiários cresce de forma significativa, e isso é positivo para a competitividade da economia brasileira como um todo. Mas para que essa expansão gere valor real, ela precisa vir acompanhada de preparo, gestão e parceiros que entendam o que está em jogo.
Oportunidade sem gestão não é oportunidade. É risco disfarçado de desconto.



