Mudanças climáticas exigem uma política para redes subterrâneas
Opinião
Mudanças climáticas exigem uma política para redes subterrâneas
Não é mais possível, com o atual modelo orientado para redes aéreas, atingir os patamares de confiabilidade exigidos pela sociedade. Os grandes eventos climáticos vieram para ficar no Brasil, onde o percentual de redes subterrâneas é inferior a 1%
Um tema que sempre aparece nas discussões sobre o setor elétrico, em especial no Congresso Nacional, onde tramitam mais de uma dezena de Projetos de Lei, alguns já apensados, versam sobre a implantação de redes de distribuição subterrâneas ou, como popularmente é chamado, o “enterramento de redes”.
Esse assunto, que costuma atrair a cobertura da mídia, ganha força principalmente após a ocorrência de eventos climáticos extremos, quando fortes ventos geram transtornos à rede elétrica, sobretudo devido à queda de árvores.
O percentual de redes de distribuição de energia elétrica subterrâneas no Brasil é expressivamente menor do que o encontrado em nações desenvolvidas na Europa e nas Américas, refletindo disparidades históricas de investimentos, custos e prioridades de infraestrutura urbana.
Enquanto no Brasil o percentual de redes subterrâneas é inferior a 1%, restringindo-se aos centros de grandes metrópoles, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília e a alguns centros históricos, países europeus apresentam percentuais entre 50% e 80%, atingindo 100% em alguns casos.
No continente americano, temos índices superiores a 20% nos Estados Unidos, 11% no Canadá e patamares superiores aos do Brasil no Uruguai.
Ao examinarmos as razões para essas diferenças, sobressai o impacto na tarifa paga pelos usuários, considerando que, em média, implantar uma rede subterrânea custa cerca de 8 vezes mais do que uma rede aérea.
Outro aspecto relevante é que, nos países com maior percentual de redes subterrâneas, os eventos climáticos extremos já ocorrem há mais tempo, tornando necessários esses investimentos mais elevados para atingir padrões superiores de confiabilidade.
Ocorre que os grandes eventos climáticos vieram para ficar no Brasil. A cada ano, deparamos com impactos crescentes de falta de energia provocados por ciclones, ventos superiores a 120 km/h e quedas de árvores. Ou seja, estamos nos aproximando, ou já chegamos, em algumas regiões, a situações similares às de países que, mesmo enfrentando esses eventos, mantêm indicadores de confiabilidade melhores que os nossos.
Em relação às tarifas de energia, os valores da parcela destinada às distribuidoras para cobrir seus investimentos, custos de operação e atendimento aos consumidores estão cada vez menores se comparados ao crescimento da inflação.
O segmento de distribuição é o único que contribui de forma direta para a chamada modicidade tarifária, acumulando cada vez mais exigências e menos recursos financeiros.
As distribuidoras de energia elétrica têm conseguido, nos últimos anos, melhorar de forma consistente seus indicadores médios de interrupção e os tempos de recuperação. No entanto, esses resultados, de forma correta, excluem os impactos de eventos climáticos extremos.
A consequência de tudo isso é uma discussão contínua entre Poder Concedente, Agência Reguladora e as distribuidoras para exigir melhorias nos indicadores de qualidade durante crises climáticas, acompanhadas de multas e punições cada vez mais severas.
Nesse ponto surgem minhas indagações: conseguiremos, com o atual modelo de redes aéreas, atingir os patamares exigidos pela sociedade?
As redes aéreas mais modernas, aliadas à digitalização e à implantação de automações, terão capacidade de superar esse desafio? Entendo que não. Por isso, necessitamos de um novo modelo de redes onde a presença de trechos subterrâneos será imprescindível, integrados às demais modernizações tecnológicas.
Já existem alternativas de redes subterrâneas de menor custo e a tarifa de energia tem espaço para absorver a necessária ampliação dessas redes sem grandes impactos, desde que haja uma redução nos altos subsídios concedidos a certas fontes de energia e a determinados grupos de consumidores.
Há de se considerar também que as tarifas devem ter flexibilidade para que os consumidores diretamente beneficiados pelas melhorias na confiabilidade contribuam proporcionalmente mais do que os demais.
Definir a qual percentual de rede subterrânea devemos chegar, em qual prazo e em quais locais exige uma análise responsável e consistente, mas que não pode mais ser adiada.
A participação de outros entes impactados, como prefeituras municipais e empresas de telecomunicações, é imprescindível na construção desse novo modelo de infraestrutura urbana.
Ao nos aproximarmos da renovação de mandatos parlamentares e governamentais, este se torna o momento adequado para aprofundar esse debate.



