Pequenas e médias empresas estão preparadas para o Mercado Livre?

Pequenas e médias empresas estão preparadas para o Mercado Livre?

A abertura do mercado livre de energia para consumidores de baixa tensão produzirá importante mudança na relação entre pequenas e médias empresas brasileiras e seu suprimento de eletricidade. A energia deixará de ser apenas uma conta a pagar para ser uma conta a administrar

Por Tulio Chipoletti

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A partir de 25 de novembro de 2027, consumidores industriais e comerciais atendidos em tensão inferior a 2,3 kV poderão escolher o fornecedor com quem contratarão sua energia. Um ano depois, o direito será estendido aos demais consumidores de baixa tensão.

Para milhões de empresas, energia elétrica sempre foi essencialmente uma conta a pagar. A empresa consumia, recebia a fatura da distribuidora e pagava uma tarifa regulada. Com a abertura, a energia passa também a ser uma compra que precisa ser administrada.

Segundo estudo recente da McKinsey, aproximadamente 4 milhões de unidades consumidoras industriais e comerciais de baixa tensão poderão participar dessa nova etapa. O número não corresponde exclusivamente a pequenas e médias empresas — o critério regulatório considera a tensão de atendimento, e não o porte empresarial —, mas inclui grande contingente de estabelecimentos comerciais e indústrias de menor porte, tais como pequenas indústrias, hospitais, supermercados etc.

O tamanho da oportunidade é evidente. Menos evidente é o grau de preparação desses consumidores.

A mesma pesquisa mostra que apenas entre 5% e 10% dos entrevistados afirmam conhecer bem o mercado livre e considerar uma migração. Mesmo entre empresas com contas superiores a R$ 10 mil mensais, 35% declaram não conhecer suficientemente o modelo.

Essa assimetria de informação talvez seja um dos principais desafios da abertura.

O primeiro risco é acreditar que migrar para o mercado livre significa, automaticamente, reduzir a conta de energia em determinado percentual. Não necessariamente.

No Ambiente de Contratação Livre, o consumidor negocia a compra da energia, mas continua utilizando a infraestrutura da distribuidora local e pagando pelos custos associados às redes, além de encargos e tributos. A distribuidora continua responsável pela infraestrutura e pela qualidade física do fornecimento.

Portanto, uma oferta afirmando que a “energia” será 20% ou 30% mais barata não significa que a conta total cairá na mesma proporção.

Um exemplo ajuda a mostrar essa diferença. Tomemos uma indústria atendida pela EDP São Paulo, enquadrada no grupo B3 convencional e consumindo 30 MWh por mês. Pelas tarifas atualmente homologadas pela Aneel, são aproximadamente R$ 456,67/MWh de TUSD e R$ 330,03/MWh de TE, totalizando R$ 786,70/MWh antes de tributos e bandeiras. O custo tarifário mensal seria, portanto, de aproximadamente R$ 23,6 mil.

No processo tarifário da EDP São Paulo, a Aneel calculou que a estrutura econômica da receita se distribui aproximadamente em 32,4% para energia, 27,8% para distribuição, 28,0% para encargos setoriais e 11,7% para transmissão e transporte.

O quadro mostra por que é necessário cuidado ao avaliar propostas.

Não existe um único “desconto do mercado livre”. O preço dependerá do momento da contratação, prazo, perfil de consumo, fonte da energia, flexibilidade e demais condições comerciais.

No caso dessa indústria, se a parcela associada à compra de energia fosse contratada com redução de 10%, 20% ou 30%, o impacto aproximado sobre o custo tarifário total seria:

Em um cenário intermediário de redução de 25% sobre a parcela de energia, a economia seria próxima de R$ 1,9 mil por mês, ou cerca de R$ 23 mil por ano. Sobre o custo tarifário total, entretanto, a redução seria de aproximadamente 8,1%, e não 25%.

O exercício é simplificado e não pretende reproduzir uma proposta comercial concreta. Custos de representação varejista, tributos e particularidades contratuais também precisam ser considerados. Seu objetivo é mostrar a diferença entre desconto sobre o preço da energia e redução efetiva da conta.

Para empresas que não possuem uma área especializada em gestão energética, essa distinção será fundamental.

Grandes consumidores industriais normalmente dispõem de profissionais habituados a acompanhar preços, contratos e exposição a riscos. Para uma pequena metalúrgica, indústria de alimentos, loja ou empresa de serviços, essa competência dificilmente faz parte do negócio principal.

A abertura, portanto, transfere ao consumidor uma nova responsabilidade: ele ganha liberdade para escolher, mas precisa compreender melhor aquilo que está contratando.

Nesse processo surge a figura do comercializador varejista. Consumidores de baixa tensão que migrarem serão representados perante a CCEE por um agente varejista. Isso simplifica a operação, mas cria outra decisão: como escolher esse representante?

Preço será importante, mas não suficiente. Solidez financeira, transparência contratual, atendimento, regras de reajuste, prazo e condições de rescisão também deverão ser avaliados.

A experiência atual mostra que o modelo já vem ganhando relevância. Em abril de 2026, cerca de 75% das novas migrações para o mercado livre ocorreram por meio de representação varejista, segundo a CCEE.

Há ainda outra questão: economia e previsibilidade não são exatamente a mesma coisa.

Para uma empresa industrial, energia é componente do custo de produção. Por isso, um contrato que não apresente o menor preço inicial pode ser interessante se proporcionar maior previsibilidade durante dois, três ou cinco anos.

O melhor contrato não será necessariamente aquele que oferecer o menor preço no primeiro momento, mas o que combinar preço, previsibilidade, flexibilidade e risco de forma adequada ao perfil do consumidor.

Também é importante compreender que mudar de fornecedor não significa mudar a rede elétrica. A distribuidora continuará responsável pela infraestrutura que leva a energia até a instalação.

Essa distinção ainda não parece clara para todos. Cerca de metade dos entrevistados pela McKinsey associou a troca de fornecedor à expectativa de redução das interrupções de energia. Uma empresa poderá, portanto, migrar para o mercado livre, sofrer posteriormente uma interrupção causada pela rede e atribuí-la equivocadamente ao novo fornecedor.

Por isso, informação e transparência serão fundamentais para a abertura.

A regulamentação prevê instrumentos como um produto padrão e um preço de referência para facilitar a comparação entre propostas. Essa comparação precisa responder perguntas bastante objetivas.

Quando uma oferta promete “25% de economia”, 25% sobre o quê? Sobre a parcela de energia? Sobre a tarifa regulada? Sobre a conta completa? Durante quanto tempo? Quais custos estão incluídos?

O consumidor passará a fazer perguntas que antes não faziam parte de sua relação com a conta de luz.

Também não existe um único perfil de consumidor de baixa tensão. Uma pequena loja, uma indústria média e um hospital poderão ter o mesmo direito de escolher o fornecedor, mas têm necessidades, padrões de consumo e tolerâncias a risco diferentes.

Por isso, a abertura não deverá significar uma migração imediata de milhões de consumidores. E talvez nem deva.

A decisão racional dependerá da economia efetivamente disponível, do perfil de consumo, das condições contratuais e da capacidade da empresa de compreender os riscos envolvidos.

O sucesso da abertura do mercado livre não deveria ser medido apenas pelo número de consumidores que deixarem o ambiente regulado. Um indicador igualmente importante será a capacidade dessas empresas de entender o que estão comprando, quanto efetivamente economizarão e quais compromissos assumirão.

Durante décadas, empresas brasileiras aprenderam a negociar matérias-primas, financiamento, seguros, logística e outros insumos essenciais. Energia elétrica, entretanto, permaneceu para muitas delas como uma tarifa definida externamente.

A partir de 2027, isso começa a mudar. A liberdade de escolha poderá estimular concorrência e oportunidades de redução de custos. Mas liberdade sem informação suficiente também pode levar a decisões inadequadas.

Para pequenas e médias empresas brasileiras, o mercado livre abre uma oportunidade relevante e, ao mesmo tempo, um novo desafio empresarial. Energia deixa de ser apenas uma conta a pagar. Passa a ser uma compra a administrar.

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