Na Suécia, o destino do biometano vai além da energia
Na Suécia, o destino do biometano vai além da energia
A Suécia gera valor com a molécula além do setor energético e integra diferentes cadeias produtivas. No polo químico de Stenungsund, a produção de biometanol é pensada a partir de biometano, dióxido de carbono capturado e hidrogênio de origem não fóssil
A Suécia fez uma escolha consistente pelo biometano na mobilidade, inclusive em sua forma liquefeita, que exige processamento e investimentos adicionais. O BioGNL oferece elevada densidade energética e facilita o transporte e a distribuição, uma vantagem em um país onde a rede de gás canalizado tem alcance limitado. A experiência demonstra que a competitividade de uma solução energética não depende apenas do preço do combustível, mas também da infraestrutura disponível e das aplicações que se pretende atender.
Após participar do Biogas Tour 2026 na Suécia, tive mais certeza de que o futuro do biometano depende em grande parte de como escolhemos utilizá-lo. O que mais me chamou atenção foi a visão estratégica da Suécia sobre o destino dessa molécula e sua capacidade de gerar valor para além do setor energético.
Ao longo das visitas técnicas, pude observar como a produção de biometano está integrada à agricultura, à gestão de resíduos, ao transporte e à indústria.
Na unidade da Gasum, em Götene, cerca de 400 mil toneladas anuais de esterco e outros substratos orgânicos são transformadas em biometano liquefeito (BioGNL), utilizado como combustível. O digestato resultante do processo é comercializado como biofertilizante e retorna à agricultura.
Na simbiose industrial de Sotenäs (inspirada na pioneira Simbiose de Kalundborg, na Dinamarca), a integração entre atividades industriais, pesca, aquicultura e agricultura demonstra como a valorização dos resíduos por meio do biometano pode conectar diferentes cadeias produtivas.
Entretanto, foi na visita à Perstorp, subsidiária do grupo Petronas, no polo químico de Stenungsund, que vi uma oportunidade especialmente relevante para o futuro do setor: o uso do biometano como fonte de carbono renovável para a indústria química. A descarbonização industrial vai além da substituição de combustíveis fósseis por energia térmica e elétrica renovável.
Muitos produtos químicos e materiais continuam dependendo de átomos de carbono em sua composição. Portanto, além de mudar a fonte de energia, será necessário substituir o carbono fóssil utilizado nos processos industriais.
O Project Air, da Perstorp, ilustra esse potencial ao prever a produção de biometanol a partir de biometano, dióxido de carbono capturado e hidrogênio de origem não fóssil. Trata-se de uma abordagem que conecta a transição energética à transformação da indústria química, criando novas possibilidades de uso para o biometano.
Essa visão é defendida pela Industry Biomethane Commission no report "More Biomethane for the Industry!", destacando a necessidade de ampliar o uso do biometano na indústria sueca. O documento também reconhece que o diferencial de custos em relação aos insumos fósseis continua sendo um obstáculo e defende medidas para ampliar a produção e criar condições econômicas mais favoráveis.
A estratégia é justamente identificar onde a molécula pode gerar valor e desenvolver políticas que permitam transformar essa oportunidade em mercado.
E por trás desta estratégia, também está a ciência! Minha visita à Universidade de Linköping e a aproximação com o Biogas Solutions Research Center (BSRC) ajudaram a compreender como o conhecimento científico pode apoiar o desenvolvimento do setor.
O centro reúne pesquisadores, empresas e instituições públicas, aproximando a pesquisa dos desafios concretos da cadeia do biogás. O próprio Biogas Tour, organizado pelo BSRC, é um exemplo dessa interação, que favorece a troca de experiências e oferece subsídios ao desenvolvimento tecnológico, às decisões empresariais e à formulação de políticas públicas.
Volto ao Brasil inspirada para seguir trabalhando pelo avanço do biometano no país. A experiência sueca não oferece um modelo a ser simplesmente reproduzido, mas demonstra a importância de definir prioridades e alinhar aplicações, tecnologia e políticas públicas.
No Brasil, esse trabalho precisa considerar a diversidade de matérias-primas, as diferenças regionais, a infraestrutura disponível e as necessidades de cada mercado consumidor. Precisamos identificar onde o biometano pode gerar mais valor em nossa realidade e criar condições para viabilizar essas aplicações.
Isso exige avaliar custos, logística, demanda e investimentos necessários, além de aproximar o conhecimento científico das decisões do setor produtivo e do poder público.
A principal lição da Suécia é que não existe uma solução única: é preciso definir objetivos, compreender as oportunidades e mobilizar ciência, indústria e poder público para transformar potencial em mercado.
O país ainda enfrenta desafios de competitividade, mas demonstra a importância de enfrentá-los com estratégia e visão de futuro. Cabe a nós encontrar o caminho mais adequado à realidade brasileira e construir as condições para realizá-lo.
Registros pessoais:

Planta de biometano de Gasum: produz BioGNL a partir de esterco (principalmente) e outros resíduos orgânicos.

Caminhão sendo abastecido com digestato (biofertilizante) na unidade de Gasum (o caminhão veio carregado com esterco para alimentar a planta de biogás).
Links de reportagens internacionais sobre a visita nas plantas citadas, no site da Universidade de Linkoping (inclui fotos tiradas pelo BSRC):
- https://liu.se/en/news-item/rapid-growth-brings-challenges-for-the-biogas-plant-in-vargarda
- https://liu.se/en/news-item/the-tanker-trucks-are-emptied-and-refilled-in-ten-minutes-
- https://liu.se/en/news-item/the-building-blocks-of-the-chemical-industry-are-found-in-the-gas



