Redução e racionalização do uso de diesel e gasolina na frota
Redução e racionalização do uso de diesel e gasolina na frota
Por sua extensão territorial, distribuição regional das refinarias e falta de oleodutos e de gasodutos, o país acaba usando o diesel para transportar diesel e gasolina ao longo das estradas
Coautores: Cristiane Alkmin J. Schmidt, Homero Ventura e Bruno Leonel
Quase todas as refinarias brasileiras estão localizadas ao longo ou próximas da costa, a exceção da Regap (MG), Reman (AM) e Repar (PR). A lógica desta implantação foi facilitar o recebimento do petróleo, vindo de bacias offshore próximas ou importado via marítima. Atualmente, mais de 90% do petróleo produzido no Brasil vem do mar.
Quando as refinarias foram construídas, ainda havia um vácuo de crescimento econômico no interior do país, com poucas estradas, pouco uso dos derivados de petróleo e pouco consumo geral de energia. Mas sendo o Brasil um país continental, esse crescimento tenderia a acontecer, o que de fato aconteceu, e os estados do Centro Oeste e Norte se tornaram o celeiro do agronegócio do Brasil propiciando o aumento do consumo de combustíveis. Haverá chances de modificação desta situação, de modo a diminuir a dependência de derivados?
O Brasil conta com uma frota de mais de 4,3 milhões de caminhões e de 1,25 milhões de ônibus, segundo o Renavam. Os centros de recebimento de derivados, para posterior distribuição, são insuficientes. O transporte de derivados por via fluvial, marítima e ferroviária ainda é pouco utilizado. Assim, o transporte dos derivados é feito, principalmente, pelo modal rodoviário e grande parte do combustível é consumido em seu próprio transporte, gerando um considerável desperdício, poluição e sobrecarga de tráfego nas estradas.

O mapa exibe a concentração das refinarias ao longo da costa e um expressivo vazio no Centro Oeste, no Norte e no interior do país.
Semelhante ao que acontece em outros países, o transporte via oleodutos e gasodutos pode ser melhor alternativa, pelo menos para os centros de distribuição mais próximos dos centros consumidores. A ANP estabelece o limite de 45 mil litros por carreta, mas isso não impede frequentes acidentes com perdas de vidas e contaminação ambiental, com derramamento de produtos no entorno das estradas, rios e riachos.
Um planejamento rigoroso de construção de dutos deveria fazer parte da política de Estado.
De acordo com dados da ANP, o Brasil consome em média mais de 70 bilhões de litros de diesel por ano ou 192 milhões de litros por dia. Somente o Mato Grosso consumiu uma média de 4,3 bilhões de litros em 2025, vindos de refinarias distantes e a maior parte por rodovia.
Portanto, há muito a ser feito para se evitar que o diesel seja consumido para o transporte de diesel e gasolina, cujo consumo é estimado em 34 bilhões de litros por ano.
Diante desse contexto, sugerimos algumas alternativas para melhorar o transporte de derivados pelo país:
- Rede de líquidos - Ampliação da rede de dutos para transporte de diesel, gasolina e biocombustíveis e o consequente aumento de centros de distribuição a partir dessa rede. Não são medidas simples, pelas implicações operacionais, a definição do modelo de negócio e quem vai pagar a conta, qual a remuneração de quem vai operar a rede e qual o destino da parcela da frota de caminhões a ser aposentada. Mas os resultados deverão ser excepcionais.
- Rede de gasodutos – A malha de transporte e distribuição de gás natural e biometano precisa ser adensada para servir os centros consumidores e as grandes rodovias no abastecimento da frota pesada com motores movidos a gás. Grandes cidades que já contam com suprimento de gás natural podem intensificar o uso em veículos leves, como Manaus, já abastecida pelo gás de Urucu, e Cuiabá, servida por gasoduto desde a Bolívia.

Oleodutos e gasodutos implantados e em implantação, segundo a EPE
- Armazenamento – A implantação de centros para recebimentos e distribuição de combustíveis via dutos é de fundamental importância, inclusive para os biocombustíveis. O mesmo deveria ser planejado para o armazenamento de gás natural e biometano.
Essa logística por dutos e armazenamento pode promover uma verdadeira revolução no uso dos combustíveis do país, deixando as rodovias para movimentação de cargas e pessoas.
- Ferrovias – O transporte de cargas e pessoas por ferrovia movidas a eletricidade sem dúvida é o principal fator para a redução do uso dos combustíveis fósseis num país das dimensões do Brasil. Veículos rodoviários ficariam restritos para o transporte de cargas até as ferrovias em distâncias curtas. Certamente, um verdadeiro ganho para todos.
Segundo o Boletim do Gás Natural publicado pelo MME, com dados até agosto de 2025, o consumo de GNV no Brasil era de apenas 2%, muito baixo pelo seu alto potencial. A falta de gasodutos de escoamento dificulta a sua utilização.
Em resumo, a ampliação da rede de dutos, a criação de centros de distribuição e de estruturas de armazenamentos certamente trarão segurança a todos e redução do consumo de diesel, do qual o país é ainda dependente de importações.
Cristiane Alkmin J. Schmidt é doutora em Economia, professora da FGV e atuou no Ministério Fazenda e Cade e foi secretária da Fazenda e Orçamento Goiás. Atualmente é presidente da MSGás
Homero Vasques de Oliveira Ventura é engenheiro civil pela USP e engenheiro de Petróleo na área Internacional da Petrobras por 35 anos. Atuou no IBP como gerente executivo de E&P.
Bruno Leonel é geólogo e geofísico, trabalhou na Starfish-Sonangol, OGG Petróleo e atualmente é gerente do campo de óleo de Tigre, da Petroil Óleo e Gás



