Revista Brasil Energia | Fenabio 2026

Milho e cana vão sustentar expansão da oferta de etanol

Unem prevê produção de milho em 20 bilhões de litros e avanço de usinas flex no país

Por Marcelo Furtado

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Amaury Pekelman (Foto: Marcelo Furtado)

A integração entre milho e cana-de-açúcar deverá ser uma das principais rotas para sustentar a expansão da produção brasileira de etanol nos próximos anos. Para o presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Amaury Pekelman, a tendência é que cada vez mais usinas originalmente construídas para processar cana incorporem o milho, aproveitando infraestrutura e biomassa existentes para ampliar a produção e operar por um período maior do ano. “A grande tendência é quem já é uma indústria de cana agregar o milho”, afirmou, em entrevista à Brasil Energia.

A perspectiva de crescimento é significativa. Segundo Pekelman, projetos já aprovados avançam em Mato Grosso do Sul, Maranhão e Minas Gerais, além das unidades em operação ou implantação principalmente em Goiás, Paraná e Mato Grosso. A Unem projeta que a produção de etanol de milho passe dos atuais cerca de 10 bilhões para 20 bilhões de litros em dez anos, elevando sua participação na oferta nacional dos atuais 30% para 40% a 45%.

A competitividade dos projetos, contudo, varia regionalmente. Pekelman destaca que incentivos de ICMS adotados por estados do Centro-Oeste tiveram papel importante na atração e viabilização dos investimentos. Esses benefícios têm horizonte até 2032 e, a partir daí, segundo o executivo, o cenário muda: sem a mesma vantagem tributária, produtividade e eficiência industrial ganharão peso ainda maior na capacidade das plantas de competir.

É nesse contexto que a associação com a cana ganha importância. A infraestrutura e a biomassa já disponíveis reduzem as necessidades adicionais de investimento em comparação com uma unidade totalmente nova. A conta inclui ainda receitas além do combustível: segundo Pekelman, aproximadamente 30% do faturamento de uma usina de milho pode vir do DDG, destinado principalmente à alimentação animal, além da receita com óleo de milho.

A integração também ocorre dentro da própria usina. Segundo Mariana Freitas, da norte-americana Fluid Quip Technologies, empresa de engenharia especializada na produção de etanol, uma planta de milho acoplada a uma unidade canavieira pode utilizar o bagaço como fonte de energia. Além do etanol, o processamento gera DDGS e óleo, diversificando as receitas e aumentando o aproveitamento da infraestrutura.

Mariana cita como exemplo a Usina Boa Vista, da São Martinho, cujo projeto de etanol de milho foi desenvolvido pela Fluid Quip. A planta foi adaptada para compartilhar a energia gerada pelo bagaço já utilizado na operação de cana. A lógica, segundo ela, é produzir mais combustível e coprodutos a partir da mesma base energética.

O aproveitamento da estrutura existente não elimina, porém, um investimento relevante. Mariana estima em cerca de R$ 700 milhões o CAPEX de uma planta bem estruturada para processar aproximadamente 1,7 mil toneladas de milho por dia dentro de uma usina de cana, considerando armazenagem razoável do grão, tecnologias de baixo consumo de vapor e maximização de rendimento.

Para Pekelman, o crescimento da produção terá de vir acompanhado da abertura de mercado. A maior oferta proporcionada por cana e milho pode abastecer exportações e novas aplicações, como combustíveis marítimos e, posteriormente, SAF, mas há também grande espaço no mercado doméstico. O executivo defende recuperar a participação do etanol hidratado na frota flex: na sua avaliação, o concorrente do etanol de milho não é o etanol de cana, mas a gasolina.

A combinação de milho e cana também altera a geografia da produção. Luís Augusto Barbosa Cortez, professor da Unicamp e integrante do CCD Etanol, observa que o milho é uma matéria-prima mais “federalista” que a cana: enquanto a produção canavieira está concentrada principalmente no Centro-Sul e na faixa litorânea do Nordeste, o grão pode ser cultivado e processado em um número maior de regiões. O avanço do etanol de milho já estaria, segundo ele, mudando tanto a geografia do milho quanto a do próprio biocombustível no país, já que proporcionalmente o Mato Grosso hoje supera São Paulo no consumo de etanol hidratado.

Em São Paulo, o CCD Etanol estuda o modelo “FlexFull”: cana durante sua safra e milho ao longo do ano. Além de aumentar a utilização dos ativos industriais, a combinação reforça a resiliência da produção. O principal desafio é assegurar o suprimento do grão, o que exige avaliar origem, preço e necessidade de armazenagem. Diferentemente da cana, o milho pode ser estocado e processado conforme as condições econômicas.

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